27 de junho de 2007

AFASTA DE MIM ESSES LÁBIOS do livro * Rosa do Mundo *




AFASTA DE MIM ESSES LÁBIOS



Guarda para ti esse beijo
Menina virgem dos dentes brancos!
Nesse teu beijo eu gosto não acho
Longe de mim guarda teus lábios.


Mais doce que o mel um beijo eu tive
Do mulher casada que o deu por amor.
Até que se acabem o mundo e os dias
Beijo de gosto só esse terei; esse não outro.


Até que a veja tal como é em sua pessoa
Por obra e por graça do filho de Deus
Outras mulheres novas e velhas não hei-de amar
Pois que o seu beijo é como é, foi e será.



Poema Cultura celta ( irlandês)

Séc. XVI/XVI

Poeta ANÓNIMO



Tradução de José Domingos Morais

26 de junho de 2007

FERNANDO MONTEIRO DA CÂMARA PEREIRA poema " D.IV"






Se sou
o poeta
perdido
no nada
poderei parar
o tempo perdido
e o tempo
que vem
como se pára
o vento
como se pára
o universo-deus

Porque o poeta
é o infinito
onde a gota de água... calada
assume a dimensão
dum universo

Se sou
o poeta do nada
poderei sonharãté ao intangivel
e ver
o universo
aos pés do Nada

Se sou
o poeta que sofre
então meterei
o universo
na gota de água ...
da manhã da esperança




Março 1981


Fernando Monteiro

do Livro " Mar Branco "

24 de junho de 2007

*A DOR DA SEPARAÇÂO * Poema de Maruyama Kaoru - Japão





Pousada numa âncora, uma gaivota pia,
De súbito, sem uma palavra, a âncora desliza,
Surpreendida, a gaivota levanta voo,

Em breve, a âncora empalidece na água, afundando-se.
E o que a gaivota sente torna-se um grito bravio, triste,

Perdido no vento.



Tradução de:

José Alberto Oliveira

Do Livro * ROSA DO MUNDO *

20 de junho de 2007

* RECINTO * poema de Carlos Pellicer - México



Onde porei o ouvido que não escute
minha voz a chamar-te?
E onde não escutar este silêncio
que te afasta lentamente triste?

Eu caminho as horas presenciadas
em nós por nós os dois.
Sei desse fruto maduro das vozes
em campos de Setembro.

Sei da noite esbelta e já tão nua
em que os nossos corpos eram um.
Sei do silêncio perante a gente obscura,
de calar este amor que é de outro modo.

Enquanto chove a ausência liberto
a escravidão de carne e a alma só
no ar suspende sua águia amorosa
que as nuvens pacíficas igualam.


Tradução de : José Bento


do Livro * ROSA DO MUNDO *


16 de junho de 2007

* NÃO CHORO... * poema de José Gomes Ferreira do Livro " ROSA DO MUNDO "



A dor não me pertence.


Vive fora de mim, na natureza,
livre como a electricidade.

Carrega os céus de sombra,
entra nas plantas,

desfaz as flores...

Corre nas veias do ar,
atrai nos abismos,

curva os pinheiros...


E em certos momentos de penumbra

iguala-me à paisagem,

surge nos meus olhos

presa a um pássaro a morrer

no céu indiferente.


Mas não choro. Não vale a pena!
A dor não é humana.



José Gomes Ferreira

13 de junho de 2007

António Botto " CANÇÃO " do Livro * ROSA DO MUNDO *





CANÇÃO



Se fosses luz serias a mais bela
De quantas há no mundo : - a luz do dia !
- Bendito seja o teu sorriso
Que desata a inspiração
Da minha fantasia !

Se fosses flor serias o perfume
Concentrado e divino que perturba
O sentir de quem nasce para amar !
- Se desejo o teu corpo é porque tenho
Dentro de mim
A sede e a vibração de te beijar!
Se fosses água - música da terra,
Serias água pura e sempre calma!
- Mas de tudo o que possas ser na vida,
Só quero, meu amor, que sejas alma !



ANTÓNIO BOTTO
(1897-1959)

10 de junho de 2007

HORAS RUBRAS de Florbela Espanca - do Livro * ROSA DO MUNDO *




HORAS RUBRAS


Horas profundas, lentas e caladas,
Feitas de beijos, sensuais e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas…

Ouço as olaias rindo desgrenhadas…
Tombam astros em fogo, astros dementes.
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata pelas estradas…

Os meus lábios são brancos como lagos…
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras …

Sou chama e neve branca e misteriosa…
E sou, talvez na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras !


Florbela Espanca
(1894-1930)

6 de junho de 2007

* A PALAVRA IMPOSSÍVEL * poema de Adolfo Casais Monteiro

Deram-me o silêncio para eu guardar dentro de mim
A vida que não se troca por palavras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
As vozes que só em mim são verdadeiras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
A impossível palavra verdade.


Deram-me o silêncio como uma palavra impossível,
Nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível,
Para eu guardar dentro de mim,
Para eu ignorar dentro de mim
A única palavra sem disfarce -
A palavra que nunca se profere.




ADOLFO CASAIS MONTEIRO


do Livro * Rosa do Mundo *
2001 Poemas para o Futuro

4 de junho de 2007

A MINHA AMANTE TEM AS VIRTUDES DA ÁGUA do Poeta Francês * VICTOR SEGALEN * - Do Livro " ROSA DO MUNDO " 2001 poemas





A MINHA AMANTE TEM

AS VIRTUDES DA ÁGUA




A minha amante tem as virtudes da água : um sorriso claro, os gestos fluentes, uma voz pura que canta gota a gota. - E por vezes, - sem querer – um fogo passa pelo meu olhar, sabe como ateá-lo estremecendo : água tirada sobre as brasas .

Minha água viva, ei-la derramada, toda, sobre a terra! Foge-me, desliza; - e tenho sede , e corro atrás dela.

Com minhas mãos formo uma taça. Com minhas duas mãos embriagado estanco-a, estreito-a, levo-a aos lábios :

E trago uma mão cheia de lama.




Tradução de Filipe Jarro


França

VICTOR SEGALEN
(1878-1919)

3 de junho de 2007

Poema de JOÃO DE DEUS * A VIDA * (Excerto)







A VIDA

(Excerto)


A vida é o dia de hoje,
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa;
A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai:
A vida dura um momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cai!

A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrela cadente,
Voa mais leve que a ave;
Nuvem que o vento nos ares,
Onda que o vento nos mares,
Uma após outra lançou,
A vida - pena caída
Da asa de ave ferida -
De vale em vale impelida
A vida o vento a levou





JOÃO DE DEUS
(1830-1896)






Do livro * ROSA DO MUNDO *


2001 Poemas para o Futuro




1 de junho de 2007

* OS AMANTES APARTADOS * de Isobel, Condessa de Argyll








OS AMANTES APARTADOS



Eu sei de um jovem que é meu desejo.
Oh Rei dos Reis ! Fazei que ele venha sem mais demora.
Eu só o quero bem enlaçado contra o meu seio
Com o seu corpo bem apoiado na minha pele.

Se a vida fosse como eu a quero
Longe de mim e eu longe dele nunca seríamos.
Sinais não vejo da sua chegada
E ele não sabe como eu o quero e é meu desejo.

No mundo não há maior tristeza que nós os dois
Pois o seu barco voga e navega longe de casa
No seu caminho do oriente; minha morada é ocidente.
Eu o desejo e ele me quer e a vida é desejos vãos.



Tradução de José Domingos Morais

Do Livro * ROSA DO MUNDO *