31 de agosto de 2009

INTIMIDADE poema de VITOR CINTRA





Teu corpo, poema ardente.

Frenética rima de ais,

Aurora, pedindo mais,

Com louco vigor, fremente.
Teu rosto, sorriso aberto,

Promessa, sonho, desejo,

Tornando-se a cada beijo

Tão quente, quanto tão certo.
E o dia feito uma hora,

Por entre os ais e os gemidos,

Festim, sem par, dos sentidos.
Mas, quando te vais embora,

Só fica o teu cheiro, intenso,

Enchendo o vazio imenso


VITOR CINTRA
Do novo livro " PEDAÇOS DO MEU SENTIR "

À venda nas livrarias, consulte:
  • Editora Temas Originais
  • 22 de agosto de 2009

    POEMA de Sophia de Mello Breyner Anderson



    A minha vida é o mar o Abril a rua
    O meu interior é uma atenção voltada para fora
    O meu viver escuta
    A frase que de coisa em coisa silabada
    Grava no espaço e no tempo a sua escrita
    Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
    Sabendo que o real o mostrará
    Não tenho explicações
    Olho e confronto
    E por método é nu meu pensamento
    A terra o sol o vento o mar
    São a minha biografia e são meu rosto
    Por isso não me peçam cartão de identidade
    Pois nenhum outro senão o mundo tenho
    Não me peçam opiniões nem entrevistas
    Não me perguntem datas nem moradas
    De tudo quanto vejo me acrescento
    E a hora da minha morte aflora lentamente
    Cada dia preparada



    Sophia de Mello Breyner Andresen

    19 de agosto de 2009

    JEITO DE SER poema de Gracinda Medeiros


    JEITO DE SER

    Abraço o mundo

    com olhos
    de sentir
    e de tocar
    enquanto
    as mãos
    ficam livres
    para o fazer
    e para o distribuir.

    Vejo a vida
    com braços
    de acolher
    e de libertar
    enquanto
    os pés
    seguem trilhas
    de perder
    e de encontrar.

    E assim,
    abraçando tudo que vejo,
    posso sentir tudo que faço,
    acolher tudo que encontro
    e libertar tudo que perco


    Gracinda Medeiros

    14 de agosto de 2009

    AMOR e SONO poema de Algernon Charles Swinburne





    Deitado a dormir entre os afagos da noite
    Vi o meu amor debruçar-se sobre o meu leito,
    Pálida como a mais escura folha do lírio ou corola
    De pele macia e escura,
    o pescoço nu para ser mordido,
    *
    Transparente de mais para corar,
    tão quente para ser branca,
    Apenas de uma cor perfeita sem branco nem vermelho.
    E os lábios abriram-se-lhe amorosamente e disseram -
    Nem sei bem o quê, excepto uma palavra -Deleite.
    *
    E a face dela era toda mel na minha boca,
    E o corpo dela todo pasto a meus olhos;
    Os braços longos e lentos,
    as mãos quentes de fogo,
    *
    As ancas frementes,
    o cabelo a cheirar a Sul,
    os pés leves luzentes,
    as coxas esplêndidas e dóceis
    E as pálpebras fulgentes
    com o desejo da minha alma.


    Charles SwinburneLondres, 1837


    Trad. Helena Barras
    do livro * Rosa dos Ventos *

    13 de agosto de 2009

    Aperta-me Junto de Ti....poema de Rui Ressurreição




    Aperta-me junto de ti,
    Quero o teu calor, o teu amor.
    Este sentimento de pertença,
    Este divino laço de ternura,
    Que nos ligará, para toda a eternidade.

    Continuarei a ser quem sou, eu mesmo,
    Aberto à vida, aberto ao mundo,
    Transparente ao meu destino,
    Com a música dentro do meu ser,
    A me fazer viver, no mais alto dos céus.

    Olha-me nos olhos
    Que vês dentro de mim?
    Gostas de mim? Do meu ser?

    Sinto que queres a minha companhia,
    Para junto vivermos em alegria,
    Descobrir o oceano do amor,
    Mesmo dentro da nossa dor,
    Percorrendo esse caminho, menos percorrido,
    Nas esferas do nosso destino.

    Quero pular e saltar,
    Amar sem limites...
    Sem fronteiras ou barreiras,
    Acreditar no teu amor,
    No teu calor...
    Que evapora os meus desejos,
    Condensando num ponto de eternidade,

    Um grito de alma,
    Que chama por socorro,
    Dentro dos seus mistérios...
    Dentro de seu labirinto...
    De vida, da sua alma querida !



    RUI RESSURREIÇÃO

    11 de agosto de 2009

    AMARRAS...poema de Rui Ressurreição




    Já não sei o que sou,
    Já não sei para onde vou.
    Estas amarras que me prendem,
    a um destino sem amor...
    Em que me roubam o meu interior,
    Em que me afagam o ego,
    E matam o meu ser.
    Eu deixo,
    E eu sinto;
    Carências...
    Existências, por viver...
    Tristeza,
    Solidão,
    Ingratidão.
    Aqui estou eu a chorar,
    Sem amar,
    Sem viver,
    Mas com vontade de morrer!


    RUI RESSURREIÇÃO

    9 de agosto de 2009

    QUEM ÉS?... poema de Ângelo Gomes




    És o sonho que se vislumbra ao longe
    O mosteiro secreto onde habita o monge
    A árida planície que é dura... que é mole,
    Conforme as chuvas te fustiguem ou não...
    És o som das palavras que me dão vida
    O trautear da canção de urânio enriquecida...
    Quem és tu? Serás a lua? Serás o sol?
    Ou serás um enclave no meu coração?



    Ângelo Gomes

    5 de agosto de 2009

    O CASAMENTO poema de Willem Elsschot ( Bélgica)



    Quando ele descobriu como a névoa do tempo
    nos olhos da mulher faúlhas apagara,
    as faces submergira, a testa lhe sulcara,
    afastou o olhar, tomado de tormento.

    Maldisse em furor e a barba arrancaria,
    co'os olhos a mediu, mas nada pra excitar,
    e essa infância ele viu em danação mudar,
    enquanto o olhava ela, cavalo que morria.

    Mas morrer não morreu, e bem ele tentou
    sugar o imo à ossada que firme a sustentava.
    Não mais ela falou, queixar-se não ousava,
    tremia que era um dó, mas curada ficou.
    Pensou: dou cabo dela e puxo fogo à casa.
    Arranco o estrado fungo que os pés me entorpeceu.
    E como quem por vaus e por fogo correu
    alhures acharei o amor que tanto abrasa.

    Mas matar não matou, porque entre sonho e agir
    atravessam-se leis e mais triviais questões,
    e até melancolia, pra a qual faltam razões,
    e que à noite acomete, quando se vai dormir.

    Os miúdos cresceram, com os anos a correr,
    e viram que o sujeito a quem chamavam pai
    quieto ao pé do lume e sem dizer um ai
    punha um ar tenebroso e horrendo de se ver.
    Willem Elsschot


    3 de agosto de 2009

    " Desejo " poema de Sérgio Jockimann





    Desejo primeiro que você ame,
    E que amando, também seja amado.
    E que se não for, seja breve em esquecer.
    E que esquecendo, não guarde mágoa.
    Desejo, pois, que não seja assim,
    Mas se for, saiba ser sem desesperar.

    Desejo também que tenha amigos,
    Que mesmo maus e inconseqüentes,
    Sejam corajosos e fiéis,
    E que pelo menos num deles
    Você possa confiar sem duvidar.
    E porque a vida é assim,
    Desejo ainda que você tenha inimigos.
    Nem muitos, nem poucos,
    Mas na medida exata para que, algumas vezes,
    Você se interpele a respeito
    De suas próprias certezas.
    E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
    Para que você não se sinta demasiado seguro.

    Desejo depois que você seja útil,
    Mas não insubstituível.
    E que nos maus momentos,
    Quando não restar mais nada,
    Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.

    Desejo ainda que você seja tolerante,
    Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
    Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
    E que fazendo bom uso dessa tolerância,
    Você sirva de exemplo aos outros.

    Desejo que você, sendo jovem,
    Não amadureça depressa demais,
    E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
    E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
    Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
    É preciso deixar que eles escorram por entre nós.

    Desejo por sinal que você seja triste,
    Não o ano todo, mas apenas um dia.
    Mas que nesse dia descubra
    Que o riso diário é bom,
    O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.

    Desejo que você descubra ,
    Com o máximo de urgência,
    Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
    Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.

    Desejo ainda que você afague um gato,
    Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
    Erguer triunfante o seu canto matinal
    Porque, assim, você se sentirá bem por nada.

    Desejo também que você plante uma semente,
    Por mais minúscula que seja,
    E acompanhe o seu crescimento,
    Para que você saiba de quantas
    Muitas vidas é feita uma árvore.

    Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
    Porque é preciso ser prático.
    E que pelo menos uma vez por ano
    Coloque um pouco dele
    Na sua frente e diga "Isso é meu",
    Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.

    Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
    Por ele e por você,
    Mas que se morrer, você possa chorar
    Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.

    Desejo por fim que você sendo homem,
    Tenha uma boa mulher,
    E que sendo mulher,
    Tenha um bom homem
    E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
    E quando estiverem exaustos e sorridentes,
    Ainda haja amor para recomeçar.
    E se tudo isso acontecer,
    Não tenho mais nada a te desejar ".


    Sérgio Jockymann

    1 de agosto de 2009

    Memória poema de Cecília Meireles

    Dedico á minha MÃE, onde quer que esteja, hoje dia do seu aniversário.
    COM SAUDADES




    Tão longe, a minha família!
    Tão dividida em pedaços!
    Um pedaço em cada parte...
    Pelas esquinas do tempo,
    brincam meus irmãos antigos:
    uns anjos, outros palhaços...
    Seus vultos de labareda
    rompem-se como retratos
    feitos em papel de seda.
    Vejo lábios, vejo braços
    - por um momento persigo-os;
    de repente, os mais exatos
    perdem sua exatidão.
    Se falo, nada responde.
    Depois, tudo vira vento
    e nem o meu pensamento
    pode compreender por onde
    passaram nem onde estão.



    CECÍLIA MEIRELES